Pimenta Rosa

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Ser Doula

Foi depois de ser mãe que tive vontade de ser doula. Mas não foi a maternidade em si ou a relação com meu filho que me levaram a esse movimento. O que me inspirou foram as pessoas que cuidaram de mim. A forma como me auxiliaram a encontrar meus próprios caminhos durante a gestação e o parto. O segundo e não menos importante motivo foram os partos. Ter podido viver processos lindos e intensos no nascimento dos filhos. Ter podido sentir a força da natureza se manifestando no meu corpo, fazendo tudo o que precisava ser feito sem ninguém interferir, me trouxe muita admiração por esse processo e pela capacidade de transformação e fortalecimento que ele tem. Então me deu vontade de ser uma facilitadora desse processo para outras mulheres. Vontade de estar com elas e auxiliá-las como minha doula, minha Obstetra e meu marido me auxiliaram. Parir foi o que me mobilizou para escolher fazer o que faço hoje.

Trabalho com o acompanhamento durante toda a gestação. Faço questão de acompanhar o casal e não só a mulher, porque entendo que o parto é dos dois. A mulher vira mãe, o pai vira pai, e mesmo não sendo o primeiro filho uma transformação acontece. E com os dois. Como sou também educadora perinatal e terapeuta corporal, os encontros que promovo envolvem conversas, mini aulas e massagens.

A parte mais teórica é de preparação. O casal vai experienciar um ritual dos mais fortes e emocionantes que podemos viver: a chegada de um filho.

A saída de um ser humano de dentro de outro. Poucas coisas na vida são mais lindas e intensas do que isso. E é importante estudar, saber de pesquisas, entender um pouco de dinâmica de parto para sentir segurança na hora que os primeiros sinais começarem a surgir.

A parte corporal promove para a mulher uma gravidez saudável, prazerosa e conectada com o próprio corpo. Gosto também de ensinar ao marido, coisas práticas que ele possa fazer no início do trabalho de parto se sintonizando com o processo da companheira. Assim, na hora H ele é “o parceiro” e não “o marido nervoso” da história.

O trabalho da doula normalmente começa na casa da gestante. Ela acompanha o início do trabalho de parto no ambiente domiciliar, dando suporte físico e emocional para a gestante além de conforto e segurança para a família. Na hora de irem para o hospital ela vai junto. Só o fato de ir para o hospital no momento correto, e não na primeira contração como muitas mães de primeira viagem fazem, já diminui muito o risco de cesariana. Se o médico recebe uma gestante em franco trabalho de parto, com boa dinâmica e que tem quem a auxilie com a dor, tem menos motivos para operá-la. Pesquisas realizadas nos últimos anos revelam que sob cuidados de uma doula, os partos evoluem mais rápido, são mais tranquilos, tem menos pedidos de analgesia e menor índice de complicações.

Na hora do parto, busco sentir as necessidades de cada mulher. Como cada parto é um, meu trabalho nunca é igual. Tem mulheres que querem ser tocadas, outras preferem estar sozinhas. Algumas precisam de palavras encorajadoras, outras só podem parir no silêncio. Tem as que adoram a banheira, que preparamos com água morna e óleos essenciais e tem as que não podem nem pensar em água.        Como saber do que cada uma precisa?

Essa é a chave e o desafio da doula.

É na hora do parto que as necessidades se apresentam. Cabe à doula (e à toda a equipe) encontrar um caminho para supri-las.

Após o nascimento faço uma visita domiciliar e converso sobre questões práticas e emocionais que surgem. Mas isso não é suficiente. Pós-parto não dura uma semana, dura meses. E é um período bem intenso: hormônios a mil, cansaço físico, os processos da amamentação, a responsabilidade e a alegria de ter uma criança para cuidar 24 horas por dia, além de todas as demandas externas.

A mulher precisa de acompanhamento, apoio e troca de informação. Já vi problemas simples de pós-parto virarem um problemão por falta do suporte adequado de uma profissional da área. Doula pós-parto é uma categoria que vem crescendo bastante e mostrando para muitas mulheres que existe sim felicidade no puerpério.

Mas para se tornar uma doula é preciso estudar, ter formação.

Existem cursos específicos para essa formação em vários lugares do Brasil e do mundo. Quem se interessa deve buscar por grupos de apoio à maternidade ativa e ao parto normal em sua cidade. Mas o que faz uma boa doula é mesmo a experiência. Depois de se formar, o ideal é fazer estágios como voluntária em hospitais ou casas de parto, para começar a compreender como funciona a dinâmica em tempo real e encontrar suas ferramentas pessoais de ação.

E esta é uma “profissão”muito antiga…

As doulas existem desde sempre. Mulheres sempre tiveram ajuda para parir. Antigamente eram as comadres, amigas, serviçais ou vizinhas que auxiliavam à gestante e à parteira durante o processo. Nas ultimas décadas, como a vida das pessoas está cada vez menos comunitária, surgiu a necessidade de uma profissional dentro da equipe de atendimento ao parto, que tivesse o papel de se focar no bem estar da mãe sem sem ser a responsável técnica. O nome Doula vem do grego e significa “aquela que serve”. E nosso trabalho é esse mesmo: servir. Servir à cada parturiente tudo o que estiver ao nosso alcance para que o parto seja digno, prazeroso, seguro e protagonizado pela própria mulher.

Atualmente existe doula para todos os gostos e necessidades: professora de yoga, psicóloga, fisioterapeuta, acupunturista, terapeuta corporal, etc. O casal pode escolher que tipo de linha prefere seguir na preparação e no acompanhamento do parto e se vincular à profissional que mais lhes convier.

Quando uma mulher é acompanhada por uma doula durante a gestação, sabe dos seus direitos, está informada e não se colocará em postura passiva diante do tratamento recebido no ambiente hospitalar. Muitas mulheres que sofrem  violência obstétrica, por falta de conhecimento, não sabem que a sofreram. Acham que parir é assim mesmo: violência física, verbal, exposição e mutilação do órgão genital fazem parte do pacote.

O índice de violência obstétrica no Brasil é altíssimo. Um dos trabalhos das doulas, assim como o de parteiras, médicos humanizados e ativistas, é de informar e concientizar, para garantir que a mulher conheça seus direitos e não permita que a violência aconteça. Essa consciência também está chegando aos profissionais de saúde, que com o assunto em evidência têm conteúdo para refletir e reverem suas práticas. Mesmo assim alguns hospitais tentam barrar a entrada das doulas nos centro cirurgico, pois elas ajudam a diminuir o número de cesárias, fato já comprovado. E mais importante ainda, ajudam mesmo que seja numa cesária a evitar essa violência obstétrica.

Cada vez mais pessoas estão descobrindo que o parto pode ser um evento muito prazeroso, de acolhimento, força e superação, daqueles que ficam na memória e no coração para sempre.

“Para mudar o mundo é preciso mudar a maneira de nascer”. Essa é uma frase clássica do conceituado obstetra francês e estudioso de humanização Michel Odent.

Os traumas que sofremos durante o parto e nos primeiros meses de vida repercutem na construção do nosso caráter e em nossa inteligência emocional. Não se trata de nascer de parto normal ou cesárea, trata-se de modificarmos totalmente a maneira de enxergarmos esse momento.

Maíra Duarte é doula, educadora perinatal, terapeuta corporal e mãe de 2 meninos!

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