Pimenta Rosa

prosa

A chegada do bebê

A equipe da Pimenta Rosa me convidou para escrever pequenas comunicações sobre os aspectos psicológicos inerentes às relações familiares e para começar decidimos eleger o desenvolvimento infantil e suas peculiaridades. Portanto, este é o primeiro texto de uma série e espero que possa contribuir para suas reflexões e vivências.

A chegada do bebê pode ser fruto de um planejamento, de um “descuido”, ou mesmo pelo desejo maior da mulher ou do homem, não há uma única forma de se esperar um filho, o que importa é a preparação para que isso aconteça de modo tranquilo para a criança e para a família, incluindo todas as variações de composições familiares que temos hoje.

O senso comum diz que os nove meses de gravidez são suficientes para o preparo dessa chegada, mas a psicologia, por meio de estudos e observações, afirma que não é apenas o acompanhamento do desenvolvimento do feto que faz com que os pais estejam aptos a desenvolver seu novo papel. Tem de haver desejo, entrega e disponibilidade para o aprendizado da nova função. Os desafios de ser responsável por uma nova vida, que inicialmente é pura dependência e que com o passar dos anos precisa conquistar a autonomia esperada de um adulto, são imensos. Primeiramente os mitos precisam ser revistos.

Um desses mitos é o da naturalidade de se tornar mãe e pai, apostando nos instintos próprios do ser humano, como o da preservação da espécie e da defesa da cria. De fato, nossos instintos existem, mas eles estão inteiramente perpassados por nossos conteúdos culturais, por nossas experiências de vida e não podemos esquecer disso pois, quando algo se torna difícil, precisamos buscar compreender o que está ocorrendo, sem culpa, sem o peso de que deveríamos saber disso “naturalmente”.

No geral, os pais se cercam de muitas informações sobre a primeira mamada, o primeiro banho, como trocar, como ninar, como lidar com o sono, com as cólicas, mas será apenas na relação com este novo sujeito humano que todas essas experiências vão se concretizar e se consolidar.

A preparação do ambiente ajuda muito e é aí que a autoridade dos pais já deve começar a valer. Os avós, tios, amigos, com todo seu afeto, querem participar do processo e podem, mas é bastante importante que sejam os pais a tomar as primeiras decisões (desde o parto, a maternidade e a ida para casa) e executar as primeiras tarefas, pois elas são mais que tarefas, são cuidados que estabelecerão a relação de afeto e de confiança entre a criança e os pais e deixarão suas primeiras marcas de amor.

Portanto, são os pais quem decidem se vai haver festa na maternidade ou se as visitas serão controladas, se o recém-nascido vai dormir no seu quartinho ou no cesto do lado da cama, se o ambiente será inteiramente silencioso e a meia luz ou se vai haver música ambiente e luzes diferentes que marquem o dia e a noite para o bebê. Decisões fundamentais que já estabelecem o ritmo, o estilo, a característica daquela família.

Claro que existem teorias que indicam o que é mais favorável, mas baseados em tudo que a psicologia do desenvolvimento já pôde fundamentar, podemos afirmar que o mais importante é o estabelecimento da comunicação, do vínculo e da relação de afeto entre os pais e o bebê. Assim, o bebê sentirá a intensidade de afeto de seus pais e estes poderão aprender como desempenhar sua nova função paterna e materna.

Referências de livros:
- Tudo começa em Casa, D.W. Winnicott, Ed. Martins Fontes.
- Um amor conquistado: o mito do amor materno, Elisabeth Badinter, Ed. Nova Fronteira
Angela Biazi Freire é Psicanalista, Doutora em Psicologia do Desenvolvimento pela USP, Professora Universitária e Mãe.

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